maio 03, 2005
O horário das escolas do 1º Ciclo...
Assino por baixo o artigo de Vital Moreira na edição de hoje do Público, "Ensino Básico a tempo inteiro", com uma única ressalva: o horário alargado das escolas do 1º Ciclo até às 17:30 horas deve ser uma "oferta" e não uma "imposição". Ou seja, as famílias que quiserem optar pelo horário alargado poderão fazê-lo, mas as crianças, todas elas, não serão obrigadas a permanecer na escola oito ou nove horas seguidas.
De resto, é o que acontece há vários anos na Escola da Ponte. As famílias que precisam têm à sua disposição um horário mais alargado de permanência dos miúdos na escola (actualmente, entre as 8:30 e as 17:30 horas). Mas as actividades curriculares normais terminam às 15:30. A partir desta hora, só ficam na escola os miúdos que, verdadeiramente, precisam dela. Há mais vida para além da escola...
Posted by ademar.santos at maio 3, 2005 03:02 PM
http://ocontradito.blogspot.com/2005/05/escola-tempo-inteiro.html
Não gosto de Vital Moreira. Das suas opiniões, bem entendido. Sendo um dos “pais” da Constituição, é frequente vê-lo numa posição demasiado conservadora para o meu gosto. Como qualquer pai, defende (bem) o seu filho até às últimas. Mesmo que, com a passagem do tempo, essa Constituição esteja completamente inadaptada ás novas realidades sociais e globais.
Não gosto de Miguel Sousa Tavares. Aqui não só das suas opiniões. É uma pessoa que se nota ter uma grande revolta contra a vida e contra a sociedade, disparando para todos os lados. Muitas vezes sem conhecimento dos assuntos.
Mas como todos, umas vezes acertam.
Quanto a Miguel Sousa Tavares, há algumas semanas dissertou no Público sobre a “nossa” Educação. Identificou uma grande parte dos nossos problemas. Mas, dias depois, perante o “bombardeamento” de opiniões indignadas da corporação atingida, quase se veio retratar em público, retirando-se, depois, com o “rabo entre as pernas”.
Vital Moreira elege (e bem) a intenção (é demais chamar-lhe medida) do Governo de Sócrates em alterar a oferta de ocupação de tempos livres para as crianças em idade de frequência do 1º Ciclo do Ensino Básico. Centrando-a nas Escolas e não em estruturas avulsas chamadas ATLs, sem qualidade e acessíveis apenas a quem as pode pagar (a professores e educadores que acumulam serviço particular depois da sua actividade lectiva na Escola, mas em pleno horário não lectivo). Não demorou nada e foi, também, cilindrado pelos corporativistas que já se colocaram barricados, de pé atrás, inviabilizando, à partida, qualquer solução.
http://anomalias.weblog.com.pt/arquivo/103853.html
Nesta reacção fica claro qual é o grande problema da Educação em Portugal. Nada mais, nada menos do que as corporações docentes, nomeadamente os sindicatos. Nem todos os professores são coniventes com os discursos sindicais, mas todos se mantém silenciosos atendendo ao sucesso que têm tido todas as suas (dos sindicatos) iniciativas de “conquista” de benesses.
Os professores portugueses ganham muito (o dobro da média europeia em relação ao PIB). Não estão no seu local de trabalho durante todo o seu horário, nem cumprem os dias de trabalho exigíveis. Isto ao contrário do que ocorre na maioria dos países europeus. Não estão sujeitos a controlo de produtividade (que resultados obtêm para os seus alunos), a sua formação tem como objectivo não o seu conteúdo, mas a sua consequência: os créditos que lhes permitem evoluírem livremente pela sua carreira até ao topo. Onde todos chegam.
Não aceitam qualquer distinção pelo mérito, por que isso traria consequências para os não distinguidos. Para haver quem mereça torna-se necessário identificar quem não merece e isso parece ser um “sapo difícil de engolir” pelos sindicatos igualitários. Assim, não há vantagem em ser melhor…
Mandam nas escolas onde os colegas dirigentes (eleitos por eles) “criam” uma escola dos professores em prejuízo de uma escola para os alunos. Como deveria ser. Fica tudo na mesma “panela” e nada evolui. Com as consequências que se conhecem. Com os resultados que temos. Com o prejuízo da nossa população e da nossa economia.
Portugal aplica muito dinheiro na Educação. Mais de 6% do PIB. Acima de muitos países europeus. Mas, como os ordenados docentes são uma autêntica esponja em Portugal (o custo com pessoal deve levar, só por si, 80% desses 6%), ficam, para as restantes despesas (estruturas, equipamentos, acção social, etc.) uns meros 0,12% do PIB. Em média, na Europa, os docentes custam metade. E estão na escola durante todo o seu período diário de trabalho (uma parte com actividades lectivas, outra com outras actividades, com ou sem os alunos). Considerando que custam metade do que em Portugal, consomem, não 80% mas apenas 40% dos custos educativos. O que liberta, para as restantes despesas, não 0,12% do PIB (em Portugal), mas 0,52% do PIB (média europeia). Ou seja, para investir na educação (retirados os custos com os docentes) mais 300% do que é aplicado em Portugal, mesmo desconsiderando que o PIB Português é menor do que a média europeia…
Outro problema: os colunistas nacionais, que escrevem nos diários e semanários, que falam na rádio e aparecem na televisão pouco ou nada percebem de Educação. E fogem desse assunto. É um sector muito próprio e fechado. Quando se arriscam, apanham “cacetada” (veja-se os dois exemplos recentes, acima indicados) e acabam, por, experimentada a “lição”, nunca mais se meterem no assunto.
Resta quem? Os doutorados em Educação e os corporativos. Que nada acrescentam de novo, mas “fazem” toda a opinião sobre o assunto. Sozinhos, sem contraditório. E, todos nós, portugueses, alegremente, a caminho do insucesso educativo… Porque, infelizmente, chegamos a um ponto em que é necessário impor que a lei seja cumprida e que as interpretações abusivas dos sindicatos sobre as leis vigentes sejam contestadas.
Quanto aos problemas desta iniciativa, já nos referimos em artigo anterior.
http://ocontradito.blogspot.com/2005/04/escolas-primrias-com-horrio-alargado.html
É das tais que o Governo manda, mas nada faz. Legisla, para outros cumprirem. Sem estudar e avaliar as questões. Por exemplo, pelos dados do ministério, 3.427 escolas de 1º Ciclo têm até 24 alunos. São 1.788 escolas as que têm entre 25 e 79 alunos. E restam 1.114 escolas com 80 ou mais alunos. Neste panorama, ninguém entende que, primeiro é necessário reordenar a rede escolar?
Finalmente, esta questão está resolvida na Madeira.
Terá o Sr. Dr. Vital Moreira a capacidade de engolir o sapo e apontar uma medida tomada por Alberto João Jardim, já há dez anos, como referência?
E, estudando essa medida, começar a perceber porque é ele eleito, sucessivamente, pela sua população?
Estou de acordo com a ideia de o alargamento do horário existir mas ser de frequência facultativa. No entanto essa "oferta"não deve significar um depósito de crianças . Conheço pouco de escolas do 1º. ciclo, sei que algumas já têm tempos livres organizados,mas tenho dúvidas em relação ao seu funcionamento. É muita escola por dia para crianças tão pequenas.
Ora até que enfim que leio um artigo lúcido, bem escrito e bem estruturado sobre o assunto do dia! Estou completamente de acordo.
Na escola pública frequentada pelos meus filhos a Associação de Pais organizou um ATL para receber os alunos que o queiram frequentar depois das 15.30 até às 18.00. Neste ATL as crianças desenvolvem uma série de actividades variadas. A inscrição é, naturalmente, facultativa. Com crianças que frequentam a educação pré-escolar o desenvolvimento das actividades é realizado por monitoras disponibilizadas pela Junta de Freguesia que trabalham sob orientação da respectiva educadora. Com a devida supervisão e enquadramento este sistema, que poderia ser melhorado ao nível do seu funcionamento, poderia ser alargado a outras escolas com um só turno. O Estado não que suprir todas as necessidades. Há que incentivar a sociedade civil a assumir um papel mais activo.