dezembro 31, 2004
Uma certa escroqueria universitária (3)...
Um dia, a curiosidade triunfou em mim sobre a sensatez e resolvi candidatar-me a uma pós-graduação. Não interessa qual, nem onde. Seleccionado, lá comecei a ir às "aulas". Julgava eu que uma pós-graduação não poderia funcionar nos moldes da formação inicial. Que os "professores" valorizariam a inteligência, a experiência e as competências de pesquisa, investigação e reflexão dos "alunos". Qual não foi, por isso, o meu espanto quando percebi que, afinal, tinha regressado, como aluno, ao liceu: os professores liam fichas nas aulas, "davam apontamentos" sobre os "programas" das diversas disciplinas e remetiam para a bibliografia que eles próprios já tinham seleccionado, que serviria (através de "testes" ou "trabalhos de grupo") de referencial à avaliação. Ou seja, pura ruminação intelectual, tipo "copy" e "paste"... As aulas, evidentemente, eram inúteis, porque os professores limitavam-se a repetir (alguns, de resto, desajeitadamente) enunciados que os alunos tinham à sua disposição nos livros que, entretanto, tinham comprado (alguns dos quais, está-se mesmo a ver, da autoria dos excelentíssimos docentes).
Ainda aguentei dois meses a tortura - foi o suficiente para perceber que a universidade portuguesa não tem emenda.
E dei comigo a pensar: se as coisas são assim numa pós-graduação, como não serão na formação inicial?...
Pobres alunos, pobre país...
Posted by ademar.santos at dezembro 31, 2004 09:05 PM
Em bom número de casos, as pós-graduações, mestrados incluídos, são hoje apenas um negócio. Nascem como cogumelos, não fazem parte de um verddeiro projecto educativo, têm currículos feitos à medida dos interesses de "professores" que, principalmente nas privadas, vão fazer uma "perninha" à universidade, muitas vezes totalmente desligados da investigação, que é o suporte necessário de um mestrado. Não admira que haja mestrados em que as teses são todas feitas fora da instituição organizadora do curso.
PS - Uma colecção de posts acutilantes, do maior interesse. Parabéns.
Ora nem mais. Esta é também, infelizmente, a minha percepção das pós-graduações nas faculdades de letras - uma valente estopada e desperdício de dinheiro, na maior parte dos casos. Os professores limitam-se a regurgitar o que já "ensinaram" nos cursos de licenciatura, geralmente em registo monológico e soporífero. Uma tortura! Também eu só aguentei três meses num mestrado...
Vejo que o Ademar hoje está imparável - e ainda bem. ;) Espero que continue a escrever sobre o ensino universitário, um dos maiores cancros do nosso sistema educativo - desde logo porque nele se formam grande parte dos professores do básico e do secundário...
E, já agora, um feliz ano novo! (dentro do possível...)
Apesar de tudo, que seja possível um 2005 tranquilo e feliz!
Abraço.