dezembro 31, 2004

Uma certa escroqueria universitária (2)...

A mentira do ensino dito superior reside na pouca ou nenhuma apetência dos professores das escolas ditas superiores para... ensinar. Não falo sequer de competência, falo apenas de apetência...

Para a maior parte dos professores ditos superiores que conheço (ou de que vou sabendo), ensinar significa simplesmente discursar, discretear ou ler fichas do alto de um púlpito para uma turbamulta de figurantes arrolados como alunos. Quando penso nesta extraordinária categoria de talentos pedagógicos que ainda hoje passam por docentes universitários vem-me sempre à memória um professor que, nos inícios da década de setenta, apanhei pela frente na Faculdade de Direito de Coimbra: Castanheira Neves. Não sei o que é feito dele. Sei apenas que, pedagogicamente falando, era completamente inepto para a função. Falava nas aulas para que ninguém o entendesse e, ademais, tinha uma dicção horrível, que tornava ainda mais desagradável e ininteligível o que dizia. Se os alunos ditos ordinários não fossem obrigados a assistir às aulas, creio que Castanheira Neves teria construído a sua brilhante carreira como professor universitário falando para auditórios vazios. Provavelmente, nem ele próprio repararia...

Mais de trinta anos volvidos, seria de esperar que a relação pedagógica nas escolas ditas superiores se tivesse alterado radicalmente. Parece que não. A grande diferença é que hoje os docentes universitários têm o hábito de projectar na parede umas coisas, na tentativa (por vezes, patética) de fixar, de alguma forma, a atenção dos alunos. No mais, as aulas continuam, em geral, a ser de uma inutilidade confrangedora: os professores (partindo do respeitável princípio de que os alunos não sabem pesquisar, nem ler) repetem, monocordicamente, as "sebentas" e os alunos, para não morrerem de tédio, entretêm o tempo a tirar "apontamentos" (que, frequentemente, não passam de "fórmulas"). Há trinta anos, tirando o recurso aos "audiovisuais", já era assim. Há mil, sem "sebentas" impressas, também...
E são estes os professores que "formam" professores...
Que ninguém se surpreenda com as consequências...

Posted by ademar.santos at dezembro 31, 2004 07:15 PM
Comments
Felizmente, conheço boas excepções. Posted by: JVC at janeiro 1, 2005 10:37 AM
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Lembrar-se de mim?