dezembro 31, 2004

Uma certa escroqueria universitária...


Vem estampado a néon na última edição da Visão: Eduardo Sá, doutorado em Psicologia, dá aulas na FPCE da Universidade de Coimbra e é professor convidado do ISPA, em Lisboa, e tem consultório nas duas cidades. Aqui há uns anos, ignoro como é hoje, Carlos Amaral Dias, psiquiatra e psicanalista, vangloriava-se de "ensinar" em não sei quantas universidades, acumulando naturalmente com a clínica, que praticava também em Coimbra e em Lisboa. Sei de um outro conhecidíssimo psicólogo, professor catedrático de uma universidade pública, que em média, por semana, passa quatro ou cinco dias no seu consultório (quando não está no estrangeiro) e raramente é visto na universidade. Se um dia se fizesse o rigoroso escrutínio das acumulações dos nossos professores universitários (e do tempo que eles, efectivamente, dedicam à docência ou à orientação dos alunos) o país ficaria, seguramente, em estado de choque (se é que ainda se choca com alguma coisa).

Percebi há muito (é uma percepção fortemente consolidada) que uma percentagem elevadíssima dos nossos professores universitários detesta fazer uma coisa: ensinar ("aturar alunos", como tantos dizem). Muitos procuram libertar-se o mais rapidamente possível das suas responsabilidades pedagógicas, sobretudo, ao nível da formação inicial. Dar aulas a jovens é, para eles, uma maçada, uma perda de tempo e quase um desprestígio profissional. Mas são, precisamente, os mesmos que, depois, falam ex catedra do "facilitismo" dominante nas escolas inferiores e que não perdem ocasião para zurzir o "pedagogismo" que seria a causa de todos os males do nosso sistema de ensino.

Já não tenho idade nem paciência, confesso, para aturar uma certa escroqueria universitária... Apenas lamento que a gente boa que ainda há nas escolas ditas superiores continue a ser cúmplice, no silêncio, deste miserável estado de coisas que nos envergonha a todos...

Posted by ademar.santos at dezembro 31, 2004 03:20 PM
Comments
. Posted by: jueguitos at julho 13, 2008 10:54 PM
O que mais me faz torcer as entranhas é que, ainda por cima, temos que ser realistas. Se a plena profissionalização universitária fosse obrigatória, fechavam as nossas faculdades de medicina. Posted by: JVC at janeiro 1, 2005 10:41 AM
Belo post, Ademar. O que mais me choca não é só o comportamento desses escroques: é, também, como diz, a cumplicidade de quem assiste em silêncio a este lamentável estado de coisas. Enfim, mais um sintoma do nosso défice democrático e do medo que ainda impera na sociedade portuguesa. Um dos grandes problemas das nossas universidades é o predomínio de gente que só defende interesses pessoais e usa as instituições para se auto-promover e para arranjar lugares para os amigos & família. Acho muito curioso que se diga que a carreira universitária se encontra neste momento bloqueada, não havendo lugar a contratações de novos professores, quando a verdade é que as instituições estão pejadas destes "professores-fantasma" que se desdobram em acumulações e cargos para os quais não têm disponibilidade ou sequer competência, muitas vezes. Se,como sugere, se fizesse um dia um levantamento sério das acumulações ilegítimas dos professores universitários e houvesse a coragem para tomar medidas em conformidade, muitas vagas se iriam dar na carreira universitária! Posted by: DK at dezembro 31, 2004 04:35 PM
Comentário









Lembrar-se de mim?