Vem estampado a néon na última edição da Visão: Eduardo Sá, doutorado em Psicologia, dá aulas na FPCE da Universidade de Coimbra e é professor convidado do ISPA, em Lisboa, e tem consultório nas duas cidades. Aqui há uns anos, ignoro como é hoje, Carlos Amaral Dias, psiquiatra e psicanalista, vangloriava-se de "ensinar" em não sei quantas universidades, acumulando naturalmente com a clínica, que praticava também em Coimbra e em Lisboa. Sei de um outro conhecidíssimo psicólogo, professor catedrático de uma universidade pública, que em média, por semana, passa quatro ou cinco dias no seu consultório (quando não está no estrangeiro) e raramente é visto na universidade. Se um dia se fizesse o rigoroso escrutínio das acumulações dos nossos professores universitários (e do tempo que eles, efectivamente, dedicam à docência ou à orientação dos alunos) o país ficaria, seguramente, em estado de choque (se é que ainda se choca com alguma coisa).
Percebi há muito (é uma percepção fortemente consolidada) que uma percentagem elevadíssima dos nossos professores universitários detesta fazer uma coisa: ensinar ("aturar alunos", como tantos dizem). Muitos procuram libertar-se o mais rapidamente possível das suas responsabilidades pedagógicas, sobretudo, ao nível da formação inicial. Dar aulas a jovens é, para eles, uma maçada, uma perda de tempo e quase um desprestígio profissional. Mas são, precisamente, os mesmos que, depois, falam ex catedra do "facilitismo" dominante nas escolas inferiores e que não perdem ocasião para zurzir o "pedagogismo" que seria a causa de todos os males do nosso sistema de ensino.
Já não tenho idade nem paciência, confesso, para aturar uma certa escroqueria universitária... Apenas lamento que a gente boa que ainda há nas escolas ditas superiores continue a ser cúmplice, no silêncio, deste miserável estado de coisas que nos envergonha a todos...
Posted by ademar.santos at dezembro 31, 2004 03:20 PM